EDUCAÇÃO VIRTUAL, EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA e EDUCAÇÃO Agosto 30, 2007
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Vivemos a Era da Informação, das Comunicações, do Conhecimento, da Imagem. Fazemos educação tradicional, convencional, presencial, à distância, e agora, Educação Virtual. Quero propor, de forma intencionalmente provocativa, que vivemos a Era dos Adjetivos. Longe de pretender iniciar uma discussão de cunho gramatical, quero sugerir que temos dedicado demasiada atenção ao que funciona como acessório, e menos ao que constitui a essência de nossas preocupações, que tem caráter mais permanente porque toca fundo num problema que é essencial e exclusivamente humano: a educação.
Virtual – o mais recente adjetivo agregado à Educação – é, dentre todos os qualificativos de inspiração tecnológica que foram sendo adotados e depois descartados nos últimos trinta anos, o que atualmente provoca maior polêmica entre os educadores, e que esperamos seja a mais produtiva. Polêmica que sempre esteve presente no período mencionado (de forma apenas aproximativa, não como data rigorosamente marcada), em torno de expressões derivadas de Tecnologia Educacional, cada uma pretendendo anunciar uma nova educação finalmente alcançada pela via das tecnologias. Algumas dessas expressões beiravam o ridículo, pelo artificialismo e por sua vinculação mal disfarçada a tentativas de introduzir à força certas propostas no ambiente educativo tradicional.
Por diversas razões, essa discussão não avançou muito no sentido de uma melhor compreensão do que de fato representam ou podem representar as tecnologias na educação. Uma dessas razões, a meu ver, resultou da identificação artificialmente polarizada de “educadores” de um lado e “tecnólogos” de outro, mesmo quando estes últimos eram, também, professores. A carência de recursos tecnológicos na maioria das escolas e a conseqüente falta de oportunidade para o desenvolvimento de conhecimentos a partir de experiência própria é, reconhecidamente, outra causa da desconfiança e temor às tecnologias demonstradas por boa parte dos professores.
Atualmente, nossos ambientes familiares, públicos ou escolares, estão muito mais impregnados de tecnologias, quase sempre identificadas como “novas”, o que certamente contribui para que, mesmo aqueles que sempre se mostraram reticentes, demonstrem atitudes e expectativas mais favoráveis ao seu uso na educação. A educação que começamos a chamar de “virtual” não poderia sequer ser concebida fora de um contexto onde predominam as Novas Tecnologias de Comunicação e Informação. Mas estamos lidando não apenas com novas tecnologias e sim com novos conceitos, que não se explicitam por si mesmos. Embora calcados em palavras comuns de nosso vocabulário, trazem novas conotações sobre as quais se faz necessário refletir, e mais ainda sobre as diversas implicações que podem ter na educação.
O primeiro conceito que necessitamos esclarecer é o mais complexo, porque expressa abstrações. Virtual é definido como “o que existe como faculdade, porém sem exercício ou efeito atual; suscetível de se realizar; potencial; o que está predeterminado e contém todas as condições essenciais à sua realização; que tem capacidade para produzir um efeito, ainda que não o produza no momento presente; implícito, tácito”. Essas definições são de três dicionários em diferentes línguas (português, espanhol e inglês) , e são consensuais. Está claro que, pelo menos por enquanto, estamos longe de um consenso em nossas definições de Educação Virtual. Uma discussão mais profunda sobre esse tema é encontrável em O que é o virtual?, de Pierre Levy, editado no Brasil e certamente conhecido dos leitores deste texto. Não temos a pretensão de reproduzir ou resumir o pensamento expresso nesse livro (leitura indispensável a qualquer educador contemporâneo), mas apenas levantar algumas reflexões a partir da experiência vivida no contexto de um curso de especialização em educação a distância, desenvolvido basicamente “on line”, ou num “ambiente virtual”.
EDUCAÇÃO VIRTUAL E À DISTÂNCIA
Educação Virtual é, antes de tudo, educação à distância, que, com essa denominação e com outras tecnologias mais simples já havia rompido a limitação a um ambiente fixo e aos métodos viáveis somente com a presença física, face a face, de professor e estudantes. Descobrimos a palavra “presencial”, uma palavra meio estranha ao nosso vocabulário, mas que se tornou necessária para estabelecer a diferença básica: ou estamos em contato direto, como sempre estivemos em qualquer situação educativa, ou estamos fisicamente distantes. A EAD só se fez possível com tecnologias, e não vamos restringir essa afirmação somente às novas. Alguns historiadores da EAD asseguram que mesmo em tempos muito remotos já havia comunicação à distância entre mestres e discípulos, através de correspondência, talvez utilizando papiros. Embora não pensemos nisso com muita freqüência, papiro, papel, pincel, lápis e tinta são tecnologias, assim como a própria palavra escrita – uma das tecnologias da inteligência, como a classifica Pierre Levy.
A superação da distância física entre os atores do processo educativo tornou-se mais fácil com os transportes modernos. A Inglaterra é considerada como um dos primeiros, senão o primeiro país a adotar o ensino por correspondência, pois desde o século passado dispunha de um sistema ferroviário que garantia a entrega postal em qualquer ponto do país em 24 horas. Mas, sem dúvida as atuais concepções de educação a distância estão associadas às tecnologias eletrônicas de comunicação, cristalizadas primeiramente no Rádio e em seguida na Televisão, que tornaram dispensável a “entrega” exclusivamente física de materiais necessários ao estudo.
As diferentes denominações que atribuímos à educação referem-se à forma de realizá-la. A rigor, essas diferenças estão se diluindo rapidamente, o que nem todos querem perceber ou admitir. A própria legislação educativa brasileira ainda reflete uma concepção estanque, diferenciada e quase sempre preconceituosa quanto às formas alternativas. O que a idéia de virtual nos sugere, desde o início, é mais do que a tendência ao desaparecimento dessas linhas demarcatórias, encaminhando-se, talvez, para a transformação de uma coisa em outra. Ou seja, a criação de uma nova forma de realizar a educação. Mas, em qualquer caso, o que está no centro da questão é a Educação. Arrisco-me a dizer que um de nossos problemas nessa área é que temos dado mais atenção à adjetivação (a forma, os modos) do que à essência substantiva de nosso problema, e daí a insatisfação com os resultados, quando os submetemos a uma crítica mais rigorosa.
O VIRTUAL E O TEMPO
A vitória sobre as distâncias físicas se completa com a superação da barreira do tempo. Não estamos mais apenas num determinado lugar, aqui e agora, mas podemos estar simultaneamente em muitos lugares. Passamos a ter o dom da simultaneidade, da ubiqüidade. Desde que, com a Internet, tornou-se possível o acesso imediato à informação e à comunicação sincrônica entre computadores situados em diferentes lugares, essa operação foi rotulada de comunicação em “tempo real”, o que nos leva a admitir, ao menos por contraste, um tempo “irreal” ou “não-real”. O tempo real a que se refere essa expressão é o tempo da máquina e das tecnologias que lhes permitem funcionar dessa maneira. Não é esse o tempo da grande parcela da população mundial que ainda permanece como que parada no tempo, vendo aumentar a cada dia a distância que a separa daqueles que se locomovem nas asas das tecnologias. Mas, fundamentalmente, o “tempo real” não é o mesmo tempo humano, e isso é parte da discussão sobre a educação virtual.
No ambiente virtual o que trafega é essencialmente informação, em velocidades inimagináveis até algumas décadas atrás. Informação que assume também uma importância inédita, a ponto de se considerar hoje a verdadeira forma de poder. Informação que é considerada a matéria-prima da educação virtual, porque acessível e praticamente ilimitada. Informação, velocidade e tempo, elementos cuja importância na história da humanidade pode ser exemplificada por três momentos simbólicos. Na Grécia antiga, no ano 490 Antes de Cristo, um homem correu sem parar durante algumas horas os 42 quilômetros de sua aldeia – Marathon – até Atenas, para levar a notícia (informação) da vitória sobre os persas. Hoje essa corrida – maratona – é apenas uma prática esportiva, sem a dramaticidade do fato que a originou. Há pouco mais de dois séculos, a Revolução americana somente chegou ao conhecimento do embaixador dos Estados Unidos na França cerca de dois meses depois, em correspondência (informação) transportada por navio. Era preciso vencer as distâncias por terra ou por mar. Pelo ar, ainda não se passava do sonho. Por outro lado, das modernas comunicações não existia ainda sequer o telégrafo, primeiro passo da verdadeira comunicação à distância.
Faltando poucas semanas para um novo século e um novo milênio (mais uma polêmica, que só interessa ao nosso calendário gregoriano: primeiro de janeiro de 2000 ou de 2001?), a informação que interessa e assusta é relacionada com um perigo totalmente virtual, conhecido popularmente como “bug do milênio”. Perigo virtual, invisível, mas que pode tornar-se real, destruindo dados, paralisando as comunicações, fazendo desaparecer dinheiro nas contas bancárias, imobilizando trens e metrôs, colocando em risco o vôo dos aviões, a menos que esteja previamente controlado, como asseguram os grandes especialistas da informática. O “bug” pertence à mesma espécie de informação que, de uma distante bolsa de valores situada em Hong Kong ou Tókio pode levar países inteiros ao desastre econômico – algo que muitos desconfiam que seja deliberado, e não resultante dos misteriosos desígnios da economia – mas, também, informação que podemos acessar nos mais diferentes pontos do mundo para nos servir à pesquisa, à educação, à aprendizagem.
Informação, velocidade, tempo – são fatores intrínsecos ao que chamamos educação virtual. Segundo Pierre Levy, “a invenção de novas velocidades é o primeiro grau da virtualização”. Como seres humanos, no entanto, não operamos no mesmo tempo cronológico de acesso e de transferência de dados ou informações. Podemos baixar e salvar um arquivo de duzentas páginas do “site” de uma universidade européia em alguns segundos, mas levaremos algumas horas em sua leitura. Esse tempo será ainda maior se a leitura for realizada como atividade de estudo, durante a qual poderemos nos deter em determinados trechos ou idéias, fazer anotações, comparações com outras leituras, consultar dicionários ou qualquer outra fonte, escrever um novo trecho daquele trabalho que motivou a busca dessas informações, etc.
Essas ações se realizam num outro ritmo, ou seja, numa outra medida de tempo. Mas, ainda estamos falando de tempo cronológico, marcado pelo relógio. Nesse tempo trabalhamos não apenas com papel, letras, palavras, mas com idéias, construímos imagens mentais. E a imagem é importante no nosso modo de pensar, de nos expressar, de elaborar nossas metáforas. No computador, símbolo máximo das tecnologias que podem nos dar esse dom da ubiqüidade, o ícone (a imagem) que indica passagem do tempo enquanto se localiza um programa, um arquivo ou se realiza uma operação qualquer, é uma ampulheta, um dos mais primitivos relógios que se conhece. A escolha desse ícone quando se procurou tornar o computador “amigável”, ultrapassando a fase em que qualquer operação nos exigia memorizar uma série de comandos e combinações, pode ter ocorrido de forma um tanto inconsciente, mas acabou simbolizando um fechamento do círculo passado-futuro desta transição cultural que estamos vivendo.
Esta é uma das questões que a experiência com um ambiente virtual de aprendizagem nos tem levado a refletir. Por mais que consideremos essencial a velocidade das informações e tiremos proveito dela, não é somente sob esse ângulo que se deve pensar a educação virtual. Os mesmos problemas já constatados em outras etapas da educação à distância se manifestam nesse novo ambiente, e o fator tempo, para o estudante, continua sujeito a circunstâncias ligadas às exigências de seu trabalho, à convivência com a família, ao tempo destinado a cuidar de eventuais problemas de saúde do próprio aluno ou de familiares, à ocorrência de fatos inesperados, ao cansaço, ao desestímulo decorrente do isolamento – ninguém está conectado sempre – e muitos outros fatores. A velocidade de acesso à informação terá que ser considerada como um dos fatores, como uma das vantagens, mas sem conotações absolutistas e determinantes em relação aos demais.
Mais importante ainda é reconhecer que existe um tempo psicológico, que não se mede pelo relógio e que é extremamente particular e diferenciado de pessoa a pessoa. É o tempo que se dedica à reflexão sobre as informações a que se tem acesso, à maturação das idéias, à elaboração de uma tarefa que toma forma aos poucos. Tudo isso tem a ver com a forma como se concebe a educação – e a aprendizagem, em particular. Se as entendemos apenas como informação, (acesso, consumo, reprodução, utilização linear na solução de questões de resposta única, por exemplo) é natural esperar que o aluno realize todas essas ações rapidamente, e rapidamente conclua seu curso, disciplina, receba seu certificado ou diploma e seja um feliz ocupante do seu espaço no mercado de trabalho apropriado. Não podemos, no entanto, usar a educação virtual para criar um mundo virtual (no sentido mais vulgar da palavra, que é o irreal, ou simplesmente imaginário).
O VIRTUAL E A FORMA DE APRENDER
A aprendizagem à distância ou virtual tem na interatividade uma das condições mais necessárias, e as tecnologias que utilizamos são apreciadas exatamente por se apresentarem como interativas. Queremos levantar uma dúvida sobre este ponto: até que ponto as tecnologias são interativas ou apenas possibilitam a interação?
É necessário fazer algumas considerações também sobre este conceito. Há muitos educadores que questionam a forma de interação com a máquina (computador, em rede ou não), argumentando que se trata de algo limitado ao que está programado, em um software ou em qualquer outro material de ensino disponibilizado. Mais uma vez, a questão deve levar em conta a natureza do que se pretende ensinar. Determinadas aprendizagens exigem mais do que uma interação, e sim uma comunicação entre pessoas, virtualmente possibilitada pelo ambiente tecnológico. A qualidade dessa comunicação é algo a ser construído, não dependendo somente do meio utilizado: uma troca de mensagens por e-mail, as idéias expressadas num fórum de discussões, o modo de realizar um “chat” ou uma videoconferência tanto podem resultar numa rica exploração das possibilidades tecnológicas como limitar-se a uma comunicação fria e rotineira. A experiência que temos vivido no curso de especialização em EAD que desenvolvemos na Faculdade de Educação da Universidade de Brasília nos dá a convicção de que esse aspecto – a comunicação – continua sendo fundamental para o sucesso ou fracasso, para a permanência ou evasão do aluno, para o enriquecimento da experiência ou o mero cumprimento de obrigações e tarefas. Em síntese, as tecnologias são excelentes intermediadoras do contato humano… ou não, dependendo da forma como as utilizamos.
AUTONOMIA E COOPERAÇÃO
Um ambiente virtual de aprendizagem é algo mais do que a relação entre dois pólos, representados de um lado pelo aluno e de outro pelo professor. O que o caracteriza como tal é a rede informática, de alcance mundial, e consequentemente a possibilidade de acesso a uma quantidade literalmente infinita de informações, dentro da qual aquilo que oferece o ambiente do curso representa uma parte muito pequena. Esta parte, portanto, há que ser relevante no que propõe e coerente na forma como orienta. No entanto, o que assume importância crucial é a autonomia intelectual do aluno. Essa é uma qualidade sempre desejada, que, no entanto, não se encontra facilmente no próprio ensino presencial, no qual embora sua ausência possa ser compensada pela ação docente às vezes acaba produzindo mais dependência do aluno em relação ao professor. Na educação virtual, autonomia é palavra-chave, condição indispensável. Se o aluno não a tem, é preciso que o curso a inclua como um de seus objetivos e que atue, coerente e eficientemente, nessa direção.
Tanto na educação à distância como na virtual, até agora mais voltadas para adultos, assume-se que o aluno é um indivíduo, e portanto a aprendizagem deve ser individualizada. Parte-se da premissa de que o aluno adulto é maduro, disciplinado, consciente, autodeterminado, automotivado. Nesse caso, passa-se a atribuir a ele e à excelência da tecnologia a responsabilidade pelo sucesso, o que se supõe ocorrerá com naturalidade também em decorrência das qualidades do próprio curso. A realidade nem sempre confirma isso. Fica evidente que todos esses atributos são construções necessárias a um processo de aprendizagem – e isso não é diferente pelo fato de trabalharmos num ambiente virtual. Podemos tentar definir essa autonomia como o desenvolvimento das capacidades de pesquisar, de organizar-se e de pensar de forma crítica e independente. A autonomia do aluno, no entanto, não deve ser pretexto para uma educação exclusivamente individualizada, que pode resultar individualizante e egoísta. Pelo contrário, ainda que o ambiente virtual não nos proporcione a mesma forma de contato pessoal caloroso que pode ser a sala de aula (como pode ser frio e distante, espaço para o autoritarismo e arrogância infelizmente tão comum entre professores), deve ser explorado como espaço cooperativo. As ferramentas o permitem, mas isso depende, antes de tudo, da filosofia que norteia o curso e das concepções de educação e aprendizagem da equipe que o realiza.
IMAGEM – TECNOLOGIAS E MEIOS DE COMUNICAÇÃO DA IMAGEM
A imagem constitui outra possibilidade extremamente importante a ser explorada na educação virtual, mas, geralmente, é ainda mal compreendida e mal aproveitada, apesar de vivermos num mundo em que estamos literalmente imersos em comunicação visual. A idéia de ambiente virtual num curso deve ampliar-se para incluir a comunicação que se pode estabelecer por outros meios que não apenas os informatizados. Há boas razões para isso, entre elas a dificuldade representada pela lentidão na transmissão de imagens animadas de maior duração, nas condições atuais da rede que dispomos – mas também pelas próprias características da imagem, que podem continuar sendo mais adequadas e fáceis de utilizar noutros suportes. O ambiente de aprendizagem, num curso “virtual”, pode e deve incluir outros meios, outras tecnologias, outros suportes de informação e comunicação. No caso da imagem, a exibição de um vídeo inteiro ou um filme telecinado ainda se faz com melhores resultados e sem o custo de tempo de transmissão, usando-se o videocassete, um aparato que está entre nós há mais tempo e que não deve ser descartado sem mais nem menos. O uso de outros meios não se justifica apenas para fugir das atuais limitações da transmissão em rede, mas porque, ao contrário do que alguns acreditam, eles não se tornaram obsoletos pelo advento da Internet. Pelo contrário, podem inclusive adquirir nova importância no processo educativo.
Parte das dificuldades que continuam existindo no uso da imagem num curso “on line” se deve às limitações tecnológicas, é verdade, mas também à cultura de professores e alunos em relação à imagem. As linguagens expressadas pela fotografia, pelo cinema e pela televisão geralmente não fazem parte da formação docente, o que não permite à grande maioria explorar suas possibilidades de uso educativo, que vão desde a reprodução de fotografias às imagens produzidas digitalmente. A falta de uma formação apropriada leva, também, a uma idéia de uso restrito às produções rotuladas como educativas. No entanto, todos os gêneros da produção cinematográfica e televisiva podem ser utilizados em situações de ensino e aprendizagem. É importante assinalar, contudo, que o aproveitamento das possibilidades da imagem não passa pelo uso meramente ilustrativo, mas implica sua leitura, sua decodificação, seu uso numa comunicação contextualizada.
Podemos dispor atualmente de imagens em diferentes suportes que se constituem quase exclusivamente de efeitos especiais, de cenas realizadas ou modificadas por processos digitais, o que nos dá a possibilidade de reprodução ou recriação da realidade. Isso sem dúvida acrescenta muito em realismo – se o que necessitamos, para fins de aprendizagem, é realismo. A título de ilustração, valeria a pena comparar os efeitos produzidos por uma tecnologia digital e aqueles realizados com recursos puramente mecânicos e óticos: no primeiro caso, os dinossauros que parecem verdadeiros e aterradores, no filme “Parque dos Dinossauros” e, de outro, o gorila do clássico “King Kong” realizado na década de trinta, e que aos nossos olhos de hoje não deixa de revelar as limitações das técnicas de animação da época. Mas o realismo, a sugestão, a leitura conotativa de uma imagem podem ser obtidos a partir de uma simples foto de jornal, de uma charge ou de uma tira de quadrinhos, não previamente rotulados como “educativos”. Educativo é o uso que podemos fazer dessas formas de comunicação, não necessariamente sua natureza ou objetivo inicial.
CONCLUSÃO
O título deste tópico deveria ser, mais apropriadamente, Conclusão Provisória. O que discutimos aqui exigiria muito mais argumentação, referências acadêmicas, exemplificação. E, como dissemos no início, este texto é mais uma provocação e a expressão de algumas idéias suscitadas pela atividade num curso “virtual”, sobre o processo educativo que nele desenvolvemos, e particularmente sobre alguns usos possíveis da imagem.
Para encontrar respostas, o primeiro requisito é saber perguntar. Essa é uma das características essenciais do pesquisador. Se considerarmos que o sujeito aprendiz no ambiente virtual é um pesquisador em potencial, a capacidade de perguntar e de buscar respostas terá que ser desenvolvida por ele. Teremos que levar os alunos a alcançar aquilo que desde os anos 60 tanto prezamos e proclamamos em nossos discursos pedagógicos (embora talvez o tenhamos realizado muito pouco): aprender a aprender.
Nas discussões sobre EAD e educação virtual quase sempre temos em mente um aprendiz adulto, e refletimos sobre capacidades que esperamos encontrar neles. Mas é necessário estender nossa reflexão também a outras faixas etárias. Não podemos minimizar o fato de que as crianças estão em contato quase permanente com a comunicação tecnológica e estão desenvolvendo formas de pensar sobre as quais temos pouco controle ou conhecimento. Estamos conscientes de que, especialmente em nosso país, só uma parcela ainda muito pequena tem acesso ao computador e à Internet, mas a quase totalidade de crianças e jovens tem acesso à televisão. Seria mais correto dizer que a televisão tem acesso a eles, ou a eles se impõe. É por essa razão que insistimos, em vários pontos deste texto, em não reduzir nossa visão de ambientes de aprendizagem virtual ao uso da rede informática.
A maioria dos aspectos que menciono neste texto se referem a problemas antigos da Educação. Antigos, mas que não deixaram de existir nem foram solucionados automaticamente pelo fato de atuarmos em novo ambiente. E que não podem deixar de ser resolvidos, para que realmente estejamos criando uma nova educação, e não apenas atualizando rótulos. Esta deve ser a nossa aspiração mais legítima. Esta é a promessa tecnológica, que devemos submeter ao crivo da ação humana, fazendo eco a Pierre Levy, ao dizer que “o virtual só eclode com a entrada da subjetividade humana no circuito”.
Evitei, de propósito, até aqui, usar a palavra “paradigma”. Por ser usada com muita freqüência a qualquer pretexto, ela pode nos levar a tantos equívocos e discussões sobre seu significado , a exemplo do que ocorre com o termo “virtual”. No entanto, é de novos paradigmas que estamos tratando. O equívoco que geralmente se agrega a essa palavra é sua interpretação exclusivamente como modelo, algo que tem caráter limitado e restritivo. O novo paradigma de educação que buscamos é mais do que um modelo ou um rearranjo de palavras. Exigirá sobretudo a recolocação, no seu devido lugar, dos elementos que introduzimos em nossa equação educativa, da subordinação dos meios aos fins, e não o contrário. O fim é o ser humano, se não por outros motivos, simplesmente porque os meios são frutos da criação humana. O homem é o único animal que realmente cria, e por isso educa. Seja utilizando uma vara para escrever na areia, como fazia o jesuíta José de Anchieta com os índios, no início da colonização brasileira, ou de mil maneiras existentes e aquelas ainda por descobrir, com a ferramenta impalpável do virtual.
De acordo com o MEC a Educação à distância terá avaliação própria Agosto 30, 2007
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O ensino superior à distância no País terá uma avaliação própria que vai determinar a autorização de universidades e o reconhecimento dos cursos. Os novos critérios elaborados pelo Ministério da Educação (MEC) foram aprovados pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) e devem ser homologados pelos Ministro Fernando Haddad ainda neste mês.
O Brasil tem hoje 205 cursos de graduação ou tecnológicos e 575,7 mil alunos no ensino superior à distância. Uma das novidades é a avaliação também dos chamados pólos presenciais, algo que surgiu apenas com a educação à distância. Eles funcionam como extensões da universidade. São instalados em vários municípios e servem como referência mais próxima para os alunos. Esses lugares, segundo o MEC, deverão oferecer recursos como acesso à internet para todos os alunos, laboratórios, bibliotecas e professores. “A idéia é que o ensino seja classificado mais como semipresencial, por causa dessa importância dos pólos”, diz o diretor de Avaliação do Instituto Nacional de Pesquisas e Estudos Educacionais (Inep), do MEC, Dilvo Ristoff.
São três os documentos elaborados pelo governo: um para avaliar instituições, outro para cursos e outro para pólos. Eles estão sendo incluídos no Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), que já é aplicado aos cursos presenciais atualmente. A educação à distância vai também receber conceitos de 1 a 5. Até hoje, não havia critérios específicos para essa modalidade.